Massa crítica: A ditadura do mimimi e a queda do Metacritic

Reaper

Na semana passada, um exército de zumbis cibernéticos produziu uma sangrenta invasão, com sangue nos olhos para destroçar toda a esperança, espalhar o Caos e massacrar os seus inimigos. Era o lançamento mundial de Mass Effect 3. Mas se engana quem pensa que eu estou falando dos Reapers, os inimigos da vez do novo épico de ficção-científica. Estou falando dos fãs e “fãs” indignados que marcharam como uma turba furiosa em direção ao sistema Metacritic com forcados, foices e tochas acesas. Um linchamento se iniciava. Enquanto a crítica especializada está dando uma média de 93 de 100 para o jogo da Bioware, os usuários baixaram a nota para um humilhante 35 na versão PC.

O Metacritic é um serviço baseado em uma excelente ideia: agregar notas de diversos sites de análises diferentes, oferecer link para as críticas na íntegra e disponibilizar uma média que deveria servir para o consumidor se orientar sobre um determinado filme, jogo, programa de TV ou álbum de música. Para fins de comparação e também porque tudo é social hoje em dia, o Metacritic caiu na armadilha de oferecer um espaço para análises de usuários comuns, gente como eu ou você que sua para comprar alguma coisa e gosta de dizer se gostou ou não. Nada que a Amazon já não tenha construído um modelo de negócios em cima.

O sucesso do Metacritic é tamanho que ele pode derrubar governos e coroar reis. O que poderia servir apenas como um guia de sugestões de compra, se transformou em um site sagrado, considerado por muitos como o senhor absoluto da verdade, principalmente na área de jogos. Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos revelou que jogos com média no Metacritic abaixo de 80 vendem mal, muito mal, raramente ultrapassando a marca de 100 mil unidades. Os 216 títulos com média acima de 90 lançados em 2011 conseguiram vender em torno de 700 mil unidades. Para boa parte dos consumidores, a nota 80 é o muro que separa os excluídos, que determina o que comprar e o que não comprar, independente das peculiaridades de cada título.

Homefront

Um dos casos mais emblemáticos deste julgamento implacável foi o lançamento do jogo Homefront. O título produzido pela THQ foi uma grande aposta da empresa, com um investimento maciço em marketing. Porém, o jogo não era exatamente a segunda vinda de Mario na Terra. Suas notas iniciais no Metacritic foram abaixo do limiar dos 80. Resultado: queda nas ações da THQ no mesmo instante. Para jogadores e investidores os números falaram mais alto do que qualquer análise e o pânico se espalhou. Na verdade, as vendas de Homefront foram bastante expressivas, impulsionadas pela pré-venda. Mas os acionistas enxergaram a má recepção como um sinal para se desfazer dos papéis da THQ. Hoje, Homefront acumula uma média de 70 no Metacritic, o suficiente para passar em qualquer escola, mas a THQ continua em crise.

Porém, o verdadeiro bug no meta-sistema está no abuso perpetrado pela massa de manifestantes raivosos que agrega ruído à comunicação.

Megafone do Inferno

Mass Effect 3 já foi acusado de tudo e atraiu uma tempestade de reclamações poucas vezes vista. Para muitos, a série abandonou suas raízes de RPG e abraçou a jogabilidade de ação menos cerebral e mais parecida com os FPS. Essa mudança seria um plano de longo prazo da Bioware para maximizar as vendas, uma estratégia que já teria sido implementada em Dragon Age 2, sob ordens da nefasta EA. Para mim, é impossível julgar, já que ainda não me aventurei nem por uma franquia, nem por outra. De todas as acusações, a mais grave diz respeito ao DLC no dia zero. Contra a antiética prática de segurar conteúdo de um jogo para vendê-lo  no mesmo dia ou semanas depois na forma de DLC, realmente não há argumentos. Mas a solução mais óbvia, o boicote do DLC “From Ashes”, é uma abordagem inteiramente descartada ou praticada somente por uma minoria.

Em torno da mesma bandeira do ódio, Mass Effect 3 conseguiu reunir ao mesmo tempo RPGistas da antiga e homofóbicos de plantão. Em pleno século XXI, uma significativa parcela de usuários está insatisfeita com o fato de que a Bioware permitiu que outras pessoas possam jogar com um protagonista gay. Sem conhecimento de causa, influenciados por alguns vídeos e fotos circulando por aí, caem na fobia de que o jogo inteiro teria virado uma versão space opera de O Segredo de Brokeback Mountain. Primeiro: as situações que fazem alusão a um relacionamento homoerótico são esparsas e claramente sinalizadas; só embarca no papel quem está a fim. Segundo: assim como o citado filme, são tão contextualizadas e naturais quanto qualquer relacionamento heterossexual que já existe desde o primeiro jogo. Terceiro: se ainda estivéssemos nos anos 20, estaríamos reclamando do Shepard mulher; se ainda estivéssemos nos anos 60, estaríamos reclamando do Shepard negro. Contraditoriamente,  um dos linchadores de Mass Effect 3 escreveu no Metacritic (já removido): “Se alguém me fizesse escolher entre ser estuprado no reto por um padre ou jogar este jogo novamente, eu preferia ser sodomizado“. É, este é o nível das “críticas”.

Protestar contra tudo que acha errado no jogo não se resume a xingar muito no Metacritic. Na verdade, há uma petição em andamento para mudar o final de Mass Effect 3. Na improvável hipótese de que a Bioware aceite as exigências de uma minoria efusiva, seria a primeira vez na história da cultura que uma obra autoral é alterada porque a audiência não gostou. Criar-se-ia uma realidade paralela onde a arte não existe, onde Humphrey Bogart termina com Ingrid Bergman em Casablanca, onde Romeu e Julieta continuam vivos e onde Guernica nunca é colocada em exposição, porque é muito feia e faz lembrar coisas ruins. E ainda querem que jogos sejam considerados arte? Ou tudo não passa de um hambúrguer que você prefere sem cebolas?

Picasso - Guernica

Picasso - Guernica

A maior parte dos ataques a Mass Effect 3 foi realizado no dia do lançamento, por pessoas que não jogaram, por pessoas que leram ou ouviram dizer sobre o DLC, sobre a existência de um modo multiplayer, sobre a opção gay ou sobre qualquer outro “defeito” que mobilize um indivíduo a criar uma conta e postar rancor. Não são análises. São gritos. Na expectativa de colocar para fora uma raiva cega sabotam a discussão de qualquer problema real que possa existir em Mass Effect 3. Ao invés de argumentos, ofensas (algumas pessoais aos desenvolvedores). Ao invés de conversação, imposição. O efeito danoso a médio prazo não afeta apenas a nota do jogo, mas toda a credibilidade do Metacritic. Essa massa vociferante atua no sistema como um  Google Bombing ou um DoS, alterando artificialmente em prol de sua própria agenda.

Talvez o Metacritic volte a ser como deveria ser e perca sua aura de guardião da Nota Suprema. Talvez se torne refém dos vândalos. Talvez perca totalmente seu sentido. Por que, não se iluda, além da Razão e da Civilidade, ele é a verdadeira vítima de toda esta história.

Mass Effect 3? Contra 686 reviews negativos, a Bioware responde com 900 mil unidades vendidas somente no primeiro dia.

Mass Effect 3

Marcados com: , , , ,
Publicado em Colunas
2 comentários sobre “Massa crítica: A ditadura do mimimi e a queda do Metacritic
  1. Hawk disse:

    Que absurdo!

    Não acredito que o mundo onde meus futuros filhos viverão, está se tornando isto daí.

    Eu gostei mais do Mass Effect 2 do que do primeiro e também gostei mais do Dragon Age 2 do que do primeiro, mas gostei mais do Bioshock 1, do que do segundo e nem por isso deixei de comprar/jogar nenhum deles, muito menos fiz fiquei falando tanta asneira quanto este povinho de vândalos e desocupados estão fazendo.

    E quando tiver uma promoção boa, comprarei, sem dúvidas, o Mass Effect 3. Se não gostar, basta não jogá-lo mais.

  2. Dario disse:

    Na minha opinião, a única coisa que esse boicote serviu foi para cortar o “oba-oba” que a midia “espcializada, formadora de opinião” estava sedenta para fazer com o jogo.

    No duro, ME3 é um bom jogo, mas um dos problemas da industria dos games é que ela quer ser hollywood e viver de super-produções. Como diria o capitão nascimento “já falei que vai dar m*rda!”