19 de janeiro de 2012

Com iTunes U, iBooks 2 e iBooks Author, Apple quer revolucionar a educação — e tem sérias chances de conseguir

16h42, por Rodrigo Ghedin

Ícones das três novidades da Apple: iTunes U, iBooks e iBooks Author.

iTunes U, iBooks e iBooks Author.

Até quem ainda não leu a biografia autorizada de Steve Jobs sabe que a sua próxima missão era fazer pelo sistema de ensino o mesmo que fez, mais de dez anos atrás, com a indústria fonográfica: revolucionar.

A Apple sempre teve uma estreita ligação com o ambiente acadêmico, dos descontos para estudantes em toda a sua linha de equipamentos a iniciativas como o iTunes U, que fornece material de estudo de instituições renomadas gratuitamente. Hoje, no evento educacional anunciado algumas semanas atrás, a empresa mostrou um plano ambicioso para mudar a forma como se ensina, nos EUA e, quem sabe, no mundo. Pode até ser que não dê certo, mas no papel e nas ferramentas apresentadas, tem tudo para ser (mais) um sucesso.

Foram três lançamentos hoje, em Nova Iorque, demonstrados por Phil Schiffer, que a cada keynote consolida-se como o sucessor do Jobs showman.

iTunes U

O iTunes U foi expandido e convertido em aplicativo para o iOS com foco no iPad. Com conteúdo para toda a vida escolar, da pré-escola à universidade, é praticamente uma App Store de cursos. Eles estão divididos por categorias ou faixas etárias e há material de gente de peso: MIT, Harvard, Yale, Duke, Khan Academy…

Além de dar acesso aos cursos, com texto e vídeo, o iTunes U ainda provê uma série de ferramentas e mecanismos para facilitar o aprendizado. Há exercícios/tarefas baseadas nas lições, anotações sincronizadas (para alternar entre iPad e iPhone) e os professores podem enviar material através do aplicativo para os alunos — notas e até tarefas. A apresentação do app lembra a do iBooks, só que com a estante feita de mogno em vez de marfim ( :lol: ). Os vídeos, e há muitos deles, podem ser vistos por streaming ou baixados para visualização offline.

iBooks 2

Catálogo de livros didáticos na iBookstore.

Livros didáticos na iBookstore. (Clique para ampliar)

Apesar do material produzido para o iTunes U, bibliografia complementar pode e deve ser utilizada. Aí entra o iBooks 2, a nova versão do aplicativo de leitura do iOS, agora com suporte a livros didáticos em uma sessão à parte.

A Apple fechou com as três maiores editoras da categoria dos Estados Unidos: Pearson, McGraw Hill e Houghton Mifflin Harcourt. Juntas, as três têm mais de 90% do mercado de livros didáticos do país. Os livros, na iBook Store, custarão até US$ 14,99, uma senhora pechincha perto dos equivalentes em papel que, por lá, chegam fácil aos US$ 80.

Eles são ilustrados e podem conter vídeos, gráficos e outros recursos que exploram as singularidades do formato tablet. A exemplo do que rola no iTunes U, os livros didáticos também apresentam desafios no final, mostrando a resposta certa em tempo real. O formato é bem bacana e, para a alegria dos pobretões curiosos ( o/ ), há demonstrações curtinhas dos livros. Baixei um de biologia e é bem bonitão.

Perguntas em um livro didático da iBookstore.

E atenção: se liga aí que é hora da revisão! (Clique para ampliar)

iBooks Author

Eis a última peça do quebra-cabeça, um programa para o Mac OS X. O iBooks Author, também gratuito, permite a qualquer pessoa criar livros didáticos com, segundo a Apple, muita facilidade. A interface parece bastante a do Keynote, o “PowerPoint da Apple”, e os recursos são bem impressionantes: importação de projetos feitos em aplicativos do tipo, comunicação com bancos de dados externos, widgets em HTML/JavaScript e pré-visualização do trabalho em tempo real direto no iPad — basta plugá-lo no Mac.

Livro sendo editador no iBooks Author, do Mac OS X.

iBooks Author. (Clique para ampliar)

O iPad tem sérias chances de substituir boa parte do material escolar dos americanos e a Apple consolidar-se como uma liderança na cada vez mais ansiada revolução da educação na terra do tio Sam. As ferramentas são integradas e sincronizadas, talvez não tornem o aprendizado mais eficiente, mas pelo menos o deixa mais divertido e alinhado com a realidade dos estudantes. As ferramentas para professores e editoras são bem completas e estendem o ensino fora da sala para além das tarefas.

Pode ser que a Apple não consiga, mas ela abre a porta para que muitas novidades nessa seara aconteçam. Com o desempenho escolar caindo em todo canto (aqui no ocidente, pelo menos), está mais do que na hora de propor mudanças profundas. Essa, é uma.

***

Baixei e estou ainda conhecendo as novidades da Apple — com exceção do iBooks Author porque… né? só tem para Mac OS X. Se tiverem alguma dúvida ou quiserem mais detalhes/screenshots dos novos apps para o iOS, peçam nos comentários. Responderei na medida do possível.

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28 comentários

  1. Cleidsonl, #

    Positivo 0

    Poderia fazer um tour em screenshots para os pobres mortais sem iPad…

  2. Kowalski, #

    Positivo 2

    A Apple só vai revolucionar mesmo se baixar o preço dos Macs e iPads para estudantes. 8-)

    • André, #

      Positivo 1

      Mas pense que somando todo os livros, o iPad é infinitamente mais barato. No caso de Ensino Médio, só um de Química, por exemplo, custa mais de 100 reais (servindo pros 3 anos). Multiplique este valor pra todas as disciplinas. Um iPad sai mais em conta. Ademais, a questão preço não depende (apenas) da Apple, como bem sabemos.

      • Rodrigo Ghedin, #

        Positivo 1

        A barreira inicial é maior, pelo custo do hardware. Depois, o conteúdo amortiza o investimento. Em vez dos US$ 100 que você pagaria em um livro, na iBookstore ele sairá por, no máximo, US$ 15.

        []‘s!

        • André, #

          Positivo 0

          Parece ser maior, porque é uma única peça, mas se vemos que ele substituirá desde atlas geográficos até livros jurídicos (e vc sabe bem o inferno que é com a desatualização rápida desse tipo de livro), vemos que é apenas uma primeira impressão. Não acho ainda que todo o conteúdo deva ser online (ainda mais com a “maravilhosa” internet brasileira), o sistema de ebooks é, ao meu ver, melhor.

          • André, #

            Positivo 0

            (não tem botão de editar)

            Sem falar que há o uso paralelo do iPad, nem que seja jogar Angry Birds. ;)

            Eu não vejo os tablets substituindo o PC (não ainda), mas vejo que logo logo todo mundo terá um tablet, como quase todo mundo tem um player de mp3, iPod ou algo para levar suas músicas consigo, desde que o Walkaman foi inventado.

      • scheldon, #

        Positivo 0

        Mas dai você desconsidera que os livros são fornecidos pelo estado.

        • André, #

          Positivo 0

          Aquelas porcarias com erros conceituais, palavrões e alguns com links para sites pornográficos?

  3. Gabriel Arruda, #

    Positivo 0

    Não acho que seja de muita vantagem para alunos universitários, mas certamente pode revolucionar quando falamos de estudantes do ensino fundamental e médio. Uma pena que deve ficar restrito aos países desenvolvidos e minorias de subdesenvolvidos por motivos óbvios.

    Um aspecto interessante que percebo no mercado, é a insignificância das gigantes orientais em realizar trabalhos desse tipo, de criar produtos e soluções realmente novas.

    Acusem-me do que quiser, mas dentre as orientais Samsung/HTC/LG, com exceção da Sony, não são nada perto das gigantes americanas como Apple/Microsoft/IBM em definir o mercado. Elas fazem hardwares excepcionais e são benéficas para o mercado, mas raramente redefinem o mercado.

    • André, #

      Positivo 2

      Tem certeza? Pense numa aula de Cálculo, onde o raciocínio e o desenvolvimento de uma Integral é feito na sua frente. Pense num problema de cinemática, onde os gráficos são animados, aulas de química com vídeos das reações ao invés de mostrar fotos antes/depois. Pense na Interatividade de acoplar programas como o Phun. Eu acho que é exatamente no ensino superior que que este tipo de material terá mais serventia. (ok, isso tb poderia e deveria ser usado no E. M., pena que frente ao atual esquema de vestibular e ENEM, serão inúteis)

      • Gabriel Arruda, #

        Positivo 0

        Não tenho certeza nenhuma :D , eu estou pensando como aluno de sistemas de informação. Grande parte do material de CC já está digitalizado e com applets(!) Java que faz as vezes de auxiliar a visualização de um algoritmo. Além disso, o notebook já é quase material comum na faculdade.

        Acho que facilitará a vida dos universitários, mas revolucionará a vida dos estudantes do ensino médio/fundamental.

        A parte didática para crianças/adolescentes é muito mais importante do que para alunos (teoricamente) já maduros da faculdade. Material didático bonito, atualizado e encantador tem potencial para melhorar a relação das crianças com a escola.

        Em resumo, acho que não aumentará a produção científica a curto prazo, mas fará mais pessoas se interessarem por estudo.

        • André, #

          Positivo 1

          O problema no seu pensamento é focar-se apenas na sua área. Pense nas outras.

          Agora, caiu um bit aqui: o que a Amazon pensa disso tudo? Acho melhor ela correr. E RÁPIDO!

  4. Clovis, #

    Positivo 2

    Qualquer iniciativa nesse sentido é válida, e a Apple é das poucas capazes de gerar mudanças em larga escala. Tomara que dê certo.

    Um grande gargalo é o preço, e esse é só um deles. Tem que ver issaê.

  5. André, #

    Positivo 1

    Aqui vemos um tiro de 12 no OLPC.

  6. andrecatapan, #

    Positivo 1

    Pra mim isso faz parte de uma estratégia pra alavancar as vendas de iPads para governos: agora a Apple pode cobrar um preço superior, haja vista que possui tanto o software quando o hardware focados na educação.
    Pra nós, que pegamos a época do quadro preto e giz, parece meio bobagem, mas pra essas crianças que já nasceram tocando numa touchscreen, um livro de papel é algo extremamente antiquado – vide aquele vídeo famoso da menina tentando dar pich-to-zoom numa revista.
    A Apple segue com a revolução que ela mesma iniciou. Acho cada vez mais válido aquela velha sentença de que a Apple é uma empresa de software e não de hardware.

    • André, #

      Positivo 0

      Ser “bobagem” é relativo. Um bom professor pode fazer um excelente trabalho com lousa e giz e um zé ruela pode fazer besteira com a melhor das tecnologias. Só que o sistema educacional do Brasil não está preparado para isso. Ele não e focado para ensinar e sim fazer copiadores de respostas para poderem passar no vestibular.

      • scheldon, #

        Positivo 0

        Mas ou menos, temos exemplos de ótimos sistemas de ensino aqui, vide o colégio estadual do Paraná , além do fato de que desde Platão se sabe que o unico instrumento pedagógico que leva a refleção é o dialogo, o resto é só um complemento.

        • André, #

          Positivo 0

          Não conheço o sistema público educacional do Paraná. Mas conheço o de do Rio de Janeiro, onde lecionei muito tempo e desisti, o de São Paulo e o de Minas Gerais. Somo a isso relatos de professores de outros estados da Federação. O Paraná, portanto, é apenas uma exceção..

          E, por favor, não mencione Platão quando estivermos falando de Ensino. É fácil ser preceptor de UM aluno por vez (além de puxar o saco dos poderosos, defender escravidão, misoginia, guerras etc).

  7. Juarez, #

    Positivo 0

    Se a Amazon ou a Barnes & Noble quiserem verder o mesmo livro (mesmo arquivo iBook) a Apple vai permitir ?
    Afinal se é para o bem dos estudantes deveria …
    Se não permitir, cabe um processo antitruste ?

    • Rodrigo Ghedin, #

      Positivo 0

      A Amazon já vende livro para o iPad através do app do Kindle. Não muda nada para ela, exceto pelo nascimento de um concorrente fortíssimo para um dos trunfos do Kindle que só está começando a florescer, o Direct Publishing.

      []‘s!

      • Juarez, #

        Positivo 0

        A Amazon vender para o Kindle e a Barnes Nook.
        O mesmo iBook que a iTunes vende.
        Como o Kindle é mais barato que o iPad, seria vantajoso para os alunos.

  8. scheldon, #

    Positivo 0

    Como sou pedagogo acompanhei os anúncios e fui testar os programas(os disponíveis para iPad). Minha opinião como educados? São livros interativos e apostilas (ARG….) bonitos, mas só.

    • André, #

      Positivo 0

      As coisas começaram hoje. O que vc esperava? O conteúdo irá aparecer, mas não por mágica. O mal é que vcs estão vendo a proposta da Apple como mais uma venda de ebooks semelhantes aos do Kindle, mas eu estou vendo mais longe: vejo as possibilidades das ferramentas que ela esta disponibilizando. Coisa que a maioria aqui não percebeu.

    • Rodrigo Ghedin, #

      Positivo 1

      Desculpe-me, scheldon, mas seu teste foi bem superficial — e nem é culpa sua, boa parte da graça do iTunes U está na relação professor-aluno.

      A Apple não apresentou programas/aplicativos ontem, ela mostrou um sistema de ensino. Universidades oferecem cursos (chegou a ver o iTunes U?) com ferramentas interativas em duas vias (informação e feedback). Professores têm nele um canal direto para com os alunos. Em vez de mandar apostilas para o “email da sala” (e como eu odeio isso; ninguém parece conhecer lista de discussão fora dos cursos de tecnologia), ele poderá utilizar-se da infra da Apple e, além de apostilas, disparar conteúdo multimídia, testes com o recebimento em tempo real das respostas dos alunos e tudo mais.

      Não é perfeito, mas é um avanço perto de todo o resto. Qual a melhor, ou pelo menos a mais usada ferramenta digital em ambiente escolar? Moodle. Feio, lento, usabilidade zero. A Apple mais uma vez fez o que faz de melhor: pega um nicho esquecido e mal aproveitado e o reforma totalmente.

      []‘s!