O quanto a pirataria afeta os lucros de estúdios e gravadoras?

Um dos argumentos mais fortes de quem condena a pirataria é o das perdas que ela gera à indústria. Associações como a RIAA e a MPAA alegam rombos milionários quando justificam suas ações truculentas contra mamães e velhinhas norte americanas que baixaram um punhado de MP3. Mas… será que o problema é tão grave assim?

No blog do Freakonomics, aquele do livro, Kal Raustiala e Chris Sprigman tentaram desmitificar as tão alardeadas perdas que a pirataria ocasiona. De lá (grifos meus):

“Então, qual o número real [de perdas em dólares]? Neste ponto, nós simplesmente não sabemos. E isso nos leva a um segundo problema: um que não é muito sobre dados, mas efeitos reais à economia. Certamente há um monte de pessoas que baixam músicas e filmes sem pagar. Está claro que, ao menos em alguns casos, a pirataria substitui uma transação legítima — por exemplo, uma pessoa que compraria o DVD do novo filme de vampiros da Kate Beckinsale (quem é ela, aliás?) mas em vez disso o baixa de graça no BitTorrent. Em outros casos, a pessoa pirateando o filme ou música jamais o compraria. Isso é especialmente verdade se o consumidor vive em um país relativamente pobre, como a China, e é simplesmente incapaz de arcar com o pagamento dos filmes e músicas ela que baixa.

Nós devemos contar essa última categoria de downloads como ‘vendas perdidas’? Não se formos honestos.

E ainda há outro problema: mesmo nas vezes em que a pirataria via Internet resulta em uma venda perdida, como essa afeta o mercado de trabalho? Enquanto empregos são perdidos na indústria da música ou cinema, eles talvez sejam criados em outras. O dinheiro que um pirata não gasta em músicas e filmes é quase que certamente gasto em outro lugar. Digamos que ele seja gasto em skate — o mesmo dólar perdido pela Sony Pictures talvez seja ganho pela Alien Workshop, uma empresa que fabrica skates.”

É o outro lado da moeda que ninguém da indústria do entretenimento tem o cuidado de olhar. Arrisco dizer por fazer sentido.

Não me recordo se comentei aqui já, em outra oportunidade, mas o modelo que estúdios e gravadoras usam funciona hoje, caso contrário não se investiria tanto e, mais importante, não se teria tanto retorno. Ele funciona de maneira injusta não com as grandes empresas, mas com o “otário” que paga para ver um filme e escutar uma música, que acaba por subsidiar a pirataria.

Daí alguém pode dizer que baixar os preços é a solução, daí a gente vê apps e jogos para celular de US$ 1 sendo pirateados derrubar essa tese. O ponto é: não há uma receita de bolo para escapar da pirataria. A única certeza é que ações “8 ou 80″ não surtem efeito. Nunca. Por mais elaborada que seja uma estratégia anti-pirataria, ela cai e, o que é pior, acaba por irritar justamente quem banca essa bagaça toda, o cara que paga. Não são os piratas que detestam DRM, eles quebram e burlam toda e qualquer proteção em tempo recorde; são os consumidores legítimos que pagam o pato — em dobro.

Em um mundo ideal, todo mundo pagaria um valor justo para se divertir, as gravadoras e estúdios não se entupiriam de tanta grana que ganham nessa brincadeira, todos seríamos felizes com um sistema econômico saudável, mais justo, fechadinho, sem disparates entre o que ganha menos e o que ganha mais. Utopia, claro. É difícil encontrar uma saída para essa bagunça. O sistema está quebrado, o que se vê são ações para remediá-lo, não solucionar o problema. Eu não sei a solução (ah, se soubesse…), mas acredito piamente que, para começo de conversa, deva haver uma flexibilização de todos os envolvidos, muita gente tem que dar o braço a torcer, se contentar com menos (dinheiro, conteúdo, menos tudo). O triste é que até isso soa utópico atualmente…

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Publicado em Editorial
12 comentários sobre “O quanto a pirataria afeta os lucros de estúdios e gravadoras?
  1. scheldon disse:

    Bem, vamos tomar o caso da industria pornô, ela é sem duvida a mais pirateada e mesmo assim bate recordes de faturamento todo ano. O pessoal da industria do entreteriemnto menos interesante devia aprender mais com a brazzers.

  2. Cobalto disse:

    Parei de ler no “Kate Beckinsale (quem é ela, aliás?)”.
    Não se esquece quem é Kate Beckinsale.
    Se o cara não tem capacidade de lembrar dele, a opinião dele não vale muito :P

    http://collider.com/wp-content/uploads/Kate-Beckinsale-Underworld-movie-image-3.jpg
    http://scifibr.files.wordpress.com/2012/01/kate-beckinsale-underworld-4-awakening-image-4.jpg

  3. Bem, vou dar um pitaco misturado com uma hipotetica experiencia pessoal:

    Hipoteticamente, digamos que eu costumo baixar torrents de filmes e series, mas isso implica em banda, tempo de procurar, espaco em disco, legendas.

    Quando o netflix foi lancado, achei legal, assinei sem problemas: afinal R$ 15 para ter acesso aos filmes que quero sem precisar ficar navegando em busca dos mesmos faz sentido (eu trabalho e tenho mais o que fazer com o meu tempo que ficar procurando seeds)

    Mas acabei cancelando a assinatura. Por que ?

    Porque o acervo estava demorando para crescer, nem sempre tinha legendas e, killer bullet, nao consigo ver no meu android nem no meu desktop Linux.

    Desculpe, mas um dos segredos da venda continuada eh a entrega quando e onde o cliente deseja.

    Sem isso, estou fora.

    Posso ate dar nova chance a eles no futuro… mas somente no futuro.

    • Esse é um dos maiores problemas da “indústria oficial”: com frequência eles oferecem produtos pagos de qualidade bem inferior ao oferecido pelo “mercado paralelo”.

  4. Felipe Lima disse:

    Impossível acabar com a piarataria.

    O jeito sao as grandes gravadoras e estudios de cinemas criarem altenativas para atrair os consumidores.

    Se hoje tem uma demanda de pessoas querendo baixar musicas, filmes e series, pela Internet, por que nao criar ferramentas para facilitar isso?

  5. vegetando disse:

    Eu pagava pelos serviços do Mega Upload e do File Serve. Isso, por causa de pontos como facilidade de achar um filme recente, opção de baixar o filme e assistir quando quiser e onde quiser, possibilidade de baixar um filme em resolução maior ou menor, dependendo da conexão que estiver usando, entre outros.

    Com um serviço semelhante oficial, poderia simplesmente usar o dinheiro pago nos serviços de Download para comprar filmes e séries. Pode até ser que o que eu paguei por eles não chegue ao valor dos que assisto, mas eu poderia ser mais criterioso com relação ao que eu compro para assistir.

    Tive um PS3 por anos e paguei por todos os jogos. Hoje pago pelos do Steam. Compro HQs pelo Comixology e não sinto necessidade de baixar de outros lugares. Recentemente até comprei alguns álbuns na loja de músicas da Nokia.

    • Felipe Lima disse:

      infelizmente tem a ganancia dessas empresas. eles querem lucrar com a venda de ingresso nos cinema, na venda de dvds, os direitos das tvs, etc.

      seria muito mais facil sim, se hoje estreia um filme no cinema, e 2 semanas depois ja tivesse a opcao de baixar no site oficial do estudio, pagando por isso. So que ai ninguem vai querer ficar comprando DVD e as TV do mundo inteiro vão chiar tambem. Por que ser assinante de PPV se eu poderia baixar o filme completo pelo site oficial do estudio?

      Estamos numa fase de transição, teremos que aguardar alguns anos para saber como vai ser o novo sistema de vendagem de filme, series, musicas, livros, hq, etc!

      att

  6. Eu sinceramente não compro tudo e ouço/assisto/consumo (software).
    Prestigio filmes bons indo no cinema assistir, comprando o dvd (os bons!).
    Apps que instalo de maneira “não oficial” ou os gratuitos quando são muito bons eu vou e pago sem chorar o donate ou a versão pro/full.
    Música é a mesma coisa, faço descoberta de novos artistas e canções e quando o trabalho me encanta eu compro.

    Não vou pagar um um filme antes de assisti-lo (exceção ao cinema, mas se ruim falo pra para todo mundo), ou por um cd apenas para ver se é “legal”. Pago os trabalhos que eu considero bons, que me agradam e claro… que tenho condições de pagar.
    JAMAIS comprarei um MS Office ou licença de Windows Ultimate master plus advanced, um app acima de 20 doletas, um jogo de 100++ e etc, acho um roubo e eu não sou palhaço para ficar dando dinheiro todo e qualquer trambiqueiro/empresa.

    • Felipe Lima disse:

      cara, eu compraria um o Windows e o Antivirus, pq eu sei q eh um produto necessario e não eh aconselhavel ficar baixando em qualquer lugar, ainda mais o Sistema Operacional!